RECORDAR BONS MOMENTOS NOS FAZEM REFLETIR NÃO SÓ O QUE FOMOS E VIVEMOS, MAS TAMBÉM SE O QUE SOMOS REPRESENTA A REALIDADE DE NOSSAS ANGÚSTIAS. ALIMENTA NOSSAS ALMAS, REFRIGERA A ANSIEDADE PELO FUTURO E NOS FAZ AMAR, VALORIZANDO CADA MINUTO NO PRESENTE.

SEJAM BEM VINDOS!


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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A ladeira da Rua Seis

      Morar em rua de ladeira tem lá suas vantagens. Claro que analisando certos aspectos, pois morar no topo dela e ter de subi-la diariamente, incomodava um pouco. A ladeira da Rua Seis era assim. Uma bela e íngreme rua. Nós morávamos bem no topo. Fomos para lá em ocasião na qual tudo que fazíamos, era necessário descê-la. Depois haja perna na volta.
      Desde os primeiros dias na pré-escola Roberto Victor Cordeiro, aos últimos no colégio Amador Arruda Mendes; O posto de saúde também ficava lá embaixo na Avenida Silvio Torres, as idas à padaria no pequeno centro comercial em frente às ruas “Três” e “Quatro”, sem falar na grande feira livre das quintas feiras nesta mesma avenida(na foto, a "Rua Seis" se encontrando com a Av. Silvio Torres).
      Como eu gostava de ir à feira com minha mãe, lembro-me que os moradores dos prédios da Avenida Waldemar Tietz utilizavam o declive como acesso à feira. Dia de grande movimento na vulgarmente conhecida, Rua Mário Calazans Machado. Com a construção do grande mercado D’avo no topo da colina, as coisas mudaram bastante, e como. Nada mais de ir ao pequeno centro comercial, tudo era feito no grande mercado que facilitou as nossas vidas e trouxe uma grande movimentação de pessoas no pacato logradouro.
      Os sábados eram bastante movimentados, o sobe e desce de pessoas e veículos naturalmente aumentaram, mas logo nos acostumamos com a nova realidade, lembro-me que eu e meus colegas amarrávamos uma linha em uma carteira e a puxávamos quando alguém se abaixava para pegá-la, eram só gargalhadas, também fazíamos isto com palha de aço em formato de um rato, colocávamos no cano e quando as mulheres passavam ao entardecer... Só gritaria! Que saudade dessas peraltices, como minha mãe recebia reclamações.  De vez em quando aparecia uma vizinha e falava: “Olha, seu menino fica tocando as campainhas das casas, dá um jeito nesse moleque!” ou então: “Veja o que seu filho fez com minha conta de água!”. Em determinada ocasião no reveillon, coloquei um morteiro no buraco de um muro de uma senhora que morava na esquina... Acabei explodindo parte do muro. Na hora as risadas foram muitas, mas depois que ví aquela senhora limpando o entulho e se lamentando, bateu um enorme remorço... Com o passar dos anos o muro ainda estava lá com o enorme buraco. Percebi meu grave exagero. Não é a toa que meu irmão mais novo diz brincando que eu era um verdadeiro terrorista.
      Anos de Copa do mundo, era a maior festa. A rua era impecavelmente pintada com os mais lindos desenhos, as guias ficavam em verde e amarelo, assim como as bandeirinhas que se trançavam entre os postes, havia até campeonato de qual era a mais bonita, inesquecível.    
      Quem cresceu em casa térrea de rua de bairro assim como eu, nos tempos que ainda era possível permanecer nas ruas, recordará comigo algumas pérolas deste privilégio. Apesar de íngreme, jogávamos muito futebol, vôlei, sem falar nas brincadeiras de rua tão conhecidas, como Taco, Rouba bandeira, Garrafão, Mãe da rua, Queimada, Pega pega, Polícia e ladrão, Esconde-esconde... No verão ficávamos até depois da forte chuva da tarde que, naquela época vinham pontualmente por volta das 17 horas e durava não mais que uma hora, brincávamos na enxurrada forte que descia pelo caminho e nas bicas d’água que desciam como ducha dos telhados. Ficávamos até ouvir o grito de nossas mães, aos berros, elas nos recebiam completamente emporcalhados, vez em quando ralados com a tampa do dedão do pé aberta e sangrando devido às topadas que costumava dar de tanto correr na rua com os pés descalços, sem falar na roupa rasgada. Minha mãe dizia: “Vai direto pro chuveiro!” E tome algumas cintadas...
       Quem pensou que eu ia me esquecer de uma das principais brincadeiras de uma rua de ladeira se enganou. Imagine uma rampa asfaltada com cerca de duzentos metros pra se esbaldar na descida.  Adivinharam? Ficou fácil! Os primeiros carros de rolimã foram feitos pelo meu pai, até freio colocava neles, aos poucos iam aparecendo mais meninos com seus carros cada vez mais customizados, tirávamos aqueles rachas, quando não fazíamos um enorme trenzinho conectando um carrinho ao outro. Era de certa forma, perigoso, pois atingíamos muita velocidade e quando nos arrebentávamos era pra valer. Vinha gente de todo lugar, as ruas vizinhas também eram ladeiras lá nas casas da Cohab 1 (veja na foto, todas as ruas inclinadas desembocavam na Avenida Silvio Torres) mas a da rua Seis era a mais íngreme e emocionante. Minha nossa! Como fazíamos barulho; Aos finais de semana, ninguém conseguia assistir televisão e às vezes éramos recebidos com baldes d’água ao passar em frente às residências, a brincadeira só acabava mesmo quando alguém perdia uma unha ou fazia algum machucado mais feio. Aos poucos com a vinda dos Skates e a melhora da condição financeira com as bicicletas fomos deixando de lado nossos rolimãs, lembro que até já adolescente, tinha o meu lá em casa todo enferrujado e sem uso, acabou sendo desmontado e jogado fora pela minha mãe.
       Felicidade na minha infância foi não ter conhecido o Playstation, (apesar de ter vivenciado o sucesso  e início do ATARI) o computador, o DVD, o Blue Ray, o Ipod, o celular, o MSN, o Face Book, o Twitter... Ainda nos perguntamos: “Como conseguíamos viver sem estas maravilhas?” A resposta?
      Viver era uma maravilha;
      Ser criança era uma maravilha, uma dádiva divina.
     Nossas exigências eram outras, éramos muito felizes com muito pouco.
      Talvez por isso eu viva de tanta nostalgia. Parte desta criança ainda está dentro de mim, apenas ofuscada entre teclas e telas que, aproximam os distantes e inegavelmente distanciam os mais próximos. Criança ainda capaz de se maravilhar com as lembranças da simplicidade e felicidade dos irmãos e meninos da Rua Seis.    

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Domingo é dia de ir pra casa da Vó.

      Como perceberam este blog se tornou mesmo uma maneira de retirar as memórias lá do fundo de meu velho baú. Ainda não sei explicar a vocês o porquê de eu ser uma pessoa tão ligada às lembranças, parece até que não vivo o presente como deveria, mas acredito que se tenho boas lembranças, foram devido às situações presentes inesquecíveis. No futuro quero continuar a escrever sobre meu passado. Fato é que tive uma infância muito rica, observando por vários aspectos, pois lembranças temos não só de coisas boas, porém me reservo a lhes contar os momentos que me fizeram acreditar, que viver vale muito a pena.
      As primeiras recordações que me vêm a cabeça, como já contado anteriormente, são dos primeiros momentos em nossa casa nova lá na Cohab 1. Eu era muito pequeno, mas foi uma fase muito marcante e intensa. Sabem aquelas primeiras recordações que você tem da sua infância, aquelas em que você não consegue ter tanta certeza, nem muito menos os detalhes, mas consegue ter um apanhado de sensações que não sabe explicar quando sua mãe ou seus avôs começam a contar? Alguns dizem que é impossível, que devo estar inventando, mas faço o desafio a qualquer um, basta um pouco de esforço. Vamos tentar?
      Tente se lembrar do que te deixava bastante excitado nos seus possíveis três anos de idade. Seria brincar ao redor da mesa da copa com seu irmão mais velho, suas intrigas, ou acompanhar sua mãe ao retirá-lo da escola ao fim das aulas. Seriam os momentos de intensa alegria nas brincadeiras com as panelas da sua mãe ou com os cobertores colocados na sala para montar barracas com auxílio das vassouras e rodos de limpeza, ou até as brigas por um mero pedaço de doce, ou simplesmente pelo desafio em terminar a refeição primeiro. Ou até aquela visita inesperada de seus tios ou avós, se fossem com os primos, melhor ainda. Deu pra viajar um pouco e vasculhar as riquezas de seu baú?
      Mas de lá do fundo deste enorme baú, todos sabem, tem uma tradição, e das melhores de se lembrar: Final de semana é dia de ir pra casa dos Avôs!
      Claro que nossos finais de semana não se resumiam a isso, por vezes íamos visitar também outros parentes, dependendo da fase, ficávamos em casa e éramos visitados, algumas vezes no verão meu pai arriscava uma praia no litoral sul, mas na grande maioria das vezes e a que me refiro aqui, foi na minha fase de bem pequeno.
      Os sábados já eram bastante excitantes, bem cedo começava o preparo. Lembro-me que minha mãe gostava de deixar nossa casa em ordem, apesar de que tínhamos uma cadelinha poodle chamada Biúca que às vezes não ia com a gente, e quando voltávamos apesar de minha mãe enrolar os tapetes e tirar as coisas do alcance daquela danadinha, não tinha jeito, a casa bagunçava toda. Aproveitávamos bem o final de semana, costumávamos sair aos Sábados a tarde é ir primeiro à casa de minha Avó paterna Joana, nos quais costumavam ser bastante agitados por conta da grande quantidade de filhos e netos que ela tinha, era um grande encontro, costumávamos jantar lá, todos ficavam até tarde acordados, muitos tios e primos, muita diversão. Meus Avôs paternos já se foram, que Deus os tenha, esta foi uma fase de muito contato com todos da família de meu pai na qual me recordo muito bem, inclusive do caminho que fazíamos de carro. Eu era bem pequeno, mas acreditem que depois de adulto ao passar nestas ruas me recordava precisamente. Nós morávamos na zona leste de São Paulo, eles no bairro de Cidade Ademar, zona sul de São Paulo e me lembro quando passávamos na Avenida 23 de Maio, em sua descida, avistávamos o obelisco do Ibirapuera ao fundo e no lado esquerdo um restaurante no formato de um barco enorme (hoje lá existe um bingo desativado), lembro precisamente quando passávamos pelo aeroporto (pois comentávamos, tentando ver os aviões) depois pegávamos o acesso para a Avenida Vereador Vicente Rao em direção à Avenida Cupecê. Parece mentira, mas quando adulto, morei e estudei lá perto e passava nestes lugares e me recordava como se fosse um Dejavú. Eu tinha apenas cerca de três a quatro anos de idade.
      Os domingos ficavam reservados para visitar os Avôs maternos que moravam em São Bernardo do Campo, bairro do Taboão, terra natal de minha mãe, onde tenho a maioria das recordações de minha infância juntamente com os avôs no qual mantive maior contato: Dona Madalena e Sr. José. Lembro-me que na maioria das ocasiões chegávamos para o almoço, mas muitas vezes também pousamos por lá, era quando acordava cedo e ia comprar pão com meu avô, quando não dávamos uma esticada até a feira de Domingo, ele gostava muito de andar a pé, conhecia muita gente no bairro, tinha muito orgulho de mostrar os netos para todos, que Deus o tenha. Lembro dos almoços, da comida de minha avó, das caipirinhas e do vinho de galão de meu avô, sem falar nas rapaduras que não podiam faltar naquela casa. Que saudade dos Natais em família, das Páscoas, aos poucos fomos deixando de ter estes costumes e nos afastando, fomos crescendo e naturalmente nossos interesses foram mudando, sem falar em situações que acabam afastando as famílias naturalmente e que só depois de adultos acabamos compreendendo.
      Acredito que a família é a maior riqueza de toda uma sociedade, pois ela é responsável por toda esta bagagem que carregamos, sejam boas ou ruins, e desta forma acredito que todo relacionamento familiar deva ser construído sob alguns pilares que sustentarão a união por muito tempo ou senão para sempre: O respeito, a verdade e a compreensão. Depois deles facilmente virá o Amor, a confiança e o sentimento de que toda família estruturada proporciona, a segurança. Imagine uma criança que não teve este privilégio. Imagine se você não tivesse guardado em sua memória o que têm hoje, ou se suas lembranças fossem traumas. Bem não quero filosofar demais e perder o foco deste texto, pois sabemos que o caráter de todo ser humano se constrói mais ou menos desta forma. Relações falsas são prejudiciais e, em vez de nos trazer boas recordações nos causam traumas, a nós e aos nossos pequenos. É nisto que eu acredito, de tal forma que um dia, resolvi me separar depois de quase sete anos de casado, nos quais foram de muito sofrimento e desentendimento, mais quem mais sofria eram as crianças que vivenciavam uma situação diária de dor, vendo os pais discutirem sempre. Foi um trauma sem proporções para meu filho ver o pai sair de casa aos seis anos de idade, mas não se compararia aos traumas diários de ver seus pais se desrespeitando. Justamente nesta fase na qual temos tantas lembranças, hoje tento dar o máximo de mim para o meu filho, realizar coisas que nunca realizei com meu pai, fazer com ele e para ele tudo aquilo que meu pai jamais pensou em fazer para mim, dizer diariamente que o amo, lhe abraçar, lhe beijar, ensinar valores familiares, a respeitar o próximo, seja quem for. Investir tudo, tudo mesmo (claro que dentro de minhas possibilidades), a torná-lo um ser humano melhor do que eu e meu pai fomos.
      Hoje o Daniel já está com dez anos e já é quase um rapaz, é um menino muito inteligente, muito sagaz e carinhoso. Tenho muito orgulho e não sei expressar o quanto é o tamanho de meu amor por ele, sei que no fundo ele ainda sofre pela minha ausência, sempre que estamos juntos aproveitamos ao máximo, sempre tento aproveitar nosso pequeno tempo para muitas conversas, ele até me acha meio chato e rigoroso, mas sinto o quanto me ama. Jamais abrirei mão de nossos momentos, pois deles ainda terei muito que lembrar também e escrever
      É... A vida passa muito rápido. Nossos avôs se vão, agora os avôs são nossos pais, amanhã seremos nós.
      O que fica é a lembrança, seja boa ou ruim. É preciso saber viver, aproveitar, curtir, amar, não mentir e enganar. Ser feliz é impossível, pois felicidade só existe quando percebemos que um dia fomos felizes, o que existe é a busca.

      Que esta busca seja feita de boas recordações.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Espera sabor pipoca.

      Vivemos esperando...
      Na minha adolescência, na Cohab 1, por muitas coisas eu esperava! Início dos anos 90, com ansiedade eu esperava. Sem falar que nesta década todos só pensavam no ano 2000! Assim como todo adolescente, sabe como é... Achava-me feio, desajeitado, fazia o possível para ficar descolado como os outros. Que esforço!
      Esperava acabar logo aquela aula chata, ir pra casa logo. Se bem que, se quisesse era só cair fora dali, subir a ladeira da "Rua seis", rango e cama! Mas o dia seguinte também seria o dia das esperas! Até cansava. Esperar o dia terminar. E outro... E outro. O que eu mais esperava mesmo era o final de semana!
      Na minha adolescência, muitas coisas me marcaram, entre as principais, estão os primeiros namoricos, aqueles em que na minha época, apesar de não tão distante, são completamente diferentes dos de hoje. Não éramos "santinhos", mas tínhamos uma inocência que hoje, não é a mesma. Também tive um amigo inseparável, juntos aprontávamos poucas e boas, nem tudo vale a pena contar aqui.
      E pensar que um dia na infância, o Renato colocou um paralelepípedo (destes de pedra!) dentro de uma bola e me pediu para dar uma bica! E dei... Aiii! Mas tudo bem. Foi na infância, eu o perdoei e nos tornamos grandes parceiros de boas aventuras. Que o digam nossas bicicletas e bairros percorridos com elas, tudo por um rabinho de saia incerto, sem falar que chegávamos suados e fedidos.
      Naquela época suor não era problema, fazíamos quase tudo a pé, claro que dentro de certos limites. Acreditem, naquela época ir a pé da Cohab 1 ao SESI lá na Cidade A. E. Carvalho pra pegar uma piscina não era problema. Mas ir a pé da Cohab I até a danceteria Toco, lá na Rua Dona Matilde para as matinês de domingo à tarde embaixo de um sol escaldante... Já não posso falar o mesmo! Ahh! Mas não deixava de ir. 
         Dentre as coisas que eu mais esperava, estão os encontros no grupo de jovens da Paróquia São Francisco de Assis aos domingos à tarde. Ali, além das amizades sob os ensinamentos de Cristo, cantávamos, tocávamos violão e claro dávamos aquelas paqueradas, ao término, ficávamos para a missa que era feita para os jovens, tinha uma banda chamados "Cavaleiros do Apocalipse" que embalava e animava aquela juventude, era muito legal, inesquecível. Época em que a igreja realizava anualmente os encontros de jovens com Cristo, finais de semanas marcantes. As quermesses nas noites frias após a missa fechavam a avenida, quentão, vinho quente e muita paquera pra esquentar.
      Após a missa ainda dávamos uma fugida para a sorveteria da "Rua Treze" que ficava aberta até tarde aos domingos, parecia até nos esperar. Ali era o sinal de que o fim de semana terminara. Dentre todas as esperas de minha adolescência, a maior de todas, deixei para contar no final. Apesar de maior, foi uma das primeiras esperas, que cessou após o término de uma das missas.
      Confesso que neste dia, não prestei atenção em quase nada na missa, nem no que o Padre Josimar falou, era impossível! A espera era que a missa terminasse! Ela saiu na frente, estava um pouco nervosa por... esperar, comprou um saquinho de pipocas e me aguardou. Na ida pra casa, ela me ofereceu:
      - Quer pipoca?
      Olhei trêmulo para aquela boca, seus lábios... Disse que não, mas lhe agradeci.
      Em seguida, num impulso, senti o gosto da pipoca da maneira mais intensa e inesperada que poderia imaginar... No nosso primeiro beijo!
      Nossos caminhos seguiram rumos diferentes e após quinze anos nos reencontramos por acaso, foi aquele espanto e, decidimos nos encontrar para relembrar estas histórias e, adivinhem?
      Em 2011, completaremos cinco anos deste reencontro com beijos nos mais variados sabores!
      Mas a espera sabor pipoca foi inesquecível!

domingo, 19 de setembro de 2010

Bairro do Brás e as lembranças do SENAI Roberto Simonsen

      Minhas primeiras andanças pela cidade de São Paulo se deram nos meados da década de 90 entre os bairros da Cohab 1 e o Brás.
      Primeiro compromisso com o futuro, a felicidade de saber que em breve estaria com uma profissão, a sensação de que algo promissor me aguardava, sensação boa, mente de jovem despreocupado, fase da vida de um paulistano que ainda consegue deitar e dormir. Compromisso que me fazia acordar cedo, não podia perder o Largo da Concórdia que saía pontualmente às cinco e vinte da manhã, aff...! É impossível não se lembrar dos detalhes das manhãs de inverno; saía de casa com duas calças, duas meias, vários agasalhos - coisa de paulistano da periferia, as roupas que tinha não esquentavam muito.
      O trajeto era de uma hora e meia até o Brás. Gostava de sentar no último banco e, como descia no ponto final, todo dia observava as mesmas pessoas entrarem e saírem durante um trajeto que cruzava os bairros de Vila Nhocuné, Vila Matilde, Penha, Vila Carrão, Tatuapé e Belém. O mesmo motorista, o mesmo cobrador, mas, mesmo assim, eram raros os cumprimentos de "bom dia!"; cisma de paulistano, sempre desconfiado na metrópole. Lembro me de uma garota muito bonita que por meses sentava-se ao meu lado, dia a após dia ensaiava o que dizer a ela, quase vencendo minha timidez... Certo dia, ela não apareceu mais, que frustração. Uma história bem engraçada: Uma vez encontrei no banco do ônibus, um batom esquecido por alguém, destes bem vermelhos. Coisa de moleque, resolvi rabiscar o assento da frente, pixações à parte, quase não me contive quando no dia seguinte, meu irmão chegou em casa com a calça toda lambuzada, dizendo: "Algum filho da p...! que não tinha o que fazer, Ah... se eu pego!"
      Como era bom observar pela janela! Ver o movimento das pessoas nas manhãs, crianças indo à escola, trabalhadores ao batente, e claro, os vovôs e vovós indo sei lá pra onde, tão cedo, sempre me perguntei... Ficava lendo os letreiros das lojas até sentir dor de cabeça, sabia todas na ponta da lingua.
      O cheiro das manhãs era bem peculiar... Dentro do ônibus não posso dizer que era tão agradável assim, alí cheirava de tudo um pouco, não preciso relatar tais odores por aqui, quem anda de coletivo sabe. Lembro-me quando o ônibus parava em frente a uma padaria na Celso Garcia, podia ver as pessoas tomando seus cafés, por aqui chamamos de "pingados", colocava o rosto próximo a janela, sentia seu aroma bem forte, misturado aos cheiros da manhã e... muita fumaça de ônibus... Cheiro de São Paulo!
      Chegando ao Largo da Concórdia, ia a pé atravessando o viaduto do Gasômetro, marmita na bolsa, garantia de bom almoço, aliás, que saudade que eu tenho de comer aquela comidinha da mamãe, que na época eu tinha a audácia de reclamar! Talvez, certa vergonha, dessas de adolescente. Chegava e ia direto para o pátio, esperava o horário de entrada para as aulas teóricas, no intervalo, entre zoeiras e muitos sarros dos colegas, íamos colocar nossas marmitas nos aquecedores. No começo, ficávamos acanhados; depois, até a mistura era compartilhada nos almoços, quando não surrupiada no mesmo momento em que eram colocadas para aquecer. Não esqueço até hoje o aborrecimento de alguns: "Filhos da P...! Roubaram o meu bife!" Posso dizer que ter o bife roubado era melhor do que encontrar alguma mistura indesejada colocada pelos mesmos filhos da p... Uma vez, encontrei um pedaço de tijolo! Um colega meu não teve a mesma sorte: encontrou uma barata; pelo menos estava morta, o problema é que a colocaram no fundo e, só depois de comer quase tudo, encontrou a danada! Incentivei-o a dar o troco, apesar de não sabermos exatamente quem fizera, tínhamos lá nossa quase certeza. A vingança foi com excremento canino... É... A vingança é um prato que se come... Sujo! Com certeza, se havia um momento e lugar para se dar risadas, era na hora do almoço naquele refeitório!
      Na hora do intervalo, serviam uma espécie de "shake" oferecido pela escola. Tinha um sabor incrível, geralmente de banana, mas era tão bom que haviam alunos que levavam recipientes exageradamente grandes para forrar a barriga, alguns até passavam mal de tanto beber aquilo.
      Às tardes, íamos para as oficinas. Lembro-me com detalhes dos primeiros contatos com um torno mecânico, do cheiro daquele lugar: líquido refrigerante, cavaco queimado e óleo lubrificante. As morsas nas bancadas, bem alinhadas, quando ocupadas, o movimento das limas, dos arcos de serra indo e vindo em busca da perfeição inalcançável. E pensar que nosso presidente Lula estudou nesta escola e talvez tenha lembranças parecidas com as minhas.
      No pátio, haviam disputas entre as turmas de mecânicos e de eletrônica. Saía cada briga feia, éramos como verdadeiras gangues; eles nos chamavam de "graxa" e nós para não deixar barato, os chamavam de "manicures", haviam também os "pica-fios", neste caso eram os alunos de eletricidade que na maioria das vezes ficavam do nosso lado nas brigas, pelo menos na minha época. Lembro que chegava arrebentado em casa, brigávamos quase sempre por besteira, mas fazíamos elos fortes, primeiras amizades verdadeiras, aprendíamos a ter coragem, a se virar sem o irmão mais velho; claro que o mais importante era a escola quem nos dava: a profissão, com muita excelência! O ensino da Roberto Simonsen sempre fora impecável!
      Na hora da saída, sempre muita emoção: íamos em bando. Caso algum de nós fosse pego pelos manicures sozinho, ou vice e versa, já viu!
      Pulávamos o muro da estação de trem, para economizar o passe de ônibus. Tinha um pessoal que ia para o sentido Calmon Viana, eu ia com a galera que pegava a chamada linha tronco, sentido estação Estudantes. Lembro da voz feminina do alto falante: "composição estacionada na plataforma dois, com destino à estação Estudanteees...". Era a maior correria, tinha de pular duas plataformas, às vezes, me ralava todo. Tudo isso só pra chegar em Artur Alvim e poder comprar uma batatinha "chips"com o passe economizado.
      Certa vez perdi um colega, chamava-se Marcelo, morava em São Miguel, que Deus o tenha. Ele era gordinho e na hora de pular a plataforma, o trem o pegou... No enterro, muitos colegas disseram: "Malditas batatinhas!"  Dei até um tempo nessa de ficar pulando muro e plataformas de embarque, ficava recordando a imagem dele... Só não consegui dar um tempo nas batatinhas...
      Mas de todo este tempo no SENAI lá do Brás, muita coisa aprendi, principalmente saber se virar um pouco nas andanças desta metrópole, a conviver em grupo com diferenças, a respeitar os colegas e principalmente os meus limites, quando digo isto é com relação a tudo que experimentei naquela fase de minha vida.
      O nome e a fisionomia de quase todos os colegas e professores, ainda estão vivos em minha memória. Foi uma fase inesquecível que marcou o início de minha etapa adulta, nunca mais os vi. Apesar de ter seguido outros caminhos e outra profissão, pois hoje sou Enfermeiro, guardo com muito carinho minha primeira profissão, minhas primeiras andanças e encontros nesta cidade fantástica, locomotiva da nação e parte de meu coração: São Paulo!
      As batatinhas chips, pelo menos aqui em Artur Alvim, acabaram saindo de moda.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minha molequice ficou na Cohab I

      Relembrar a infância! Ah, como é fácil! Pois foi uma infância esplendorosa! Impressionante como somente depois de adultos podemos ter a certeza de que tudo aquilo que passou foi inesquecível, além da mesma, mas infeliz certeza, de que aqueles momentos não voltam mais.
      Nasci no ano de 1977, na Zona Sul de São Paulo. Morava em São Bernardo e com um ano de idade meus pais se mudaram para o Conjunto Habitacional Padre José de Anchieta. O ano era 1978.
      Primeiros moradores de um bairro que então surgia, na época meu pai podia escolher o local de moradia no conjunto com facilidade, e optou por um local onde achou ser o melhor. Segundo ele, tinha medo das fortes chuvas de verão, então optou em escolher uma rua de ladeira. A casa ficava bem lá em cima. Na época, as ruas não tinham nome, apenas números, e por lá, até hoje, trinta anos depois, todos ainda a conhecem como Rua "6", vulgarmente conhecida como Mário Calazans Machado (na foto acima, é a rua das casas, vejam que é uma ladeira, essa foto deve ser de 1978 ou 79). Apesar de na época estar com apenas um ano e meio, mais ou menos, posso me lembrar precisamente de detalhes de nossa casa nova, como as paredes de tijolos pintados de branco, o piso paviflex emborrachado da cozinha e da copa, do forro de gesso branco. Os fundos de nossa casa davam num enorme barranco que se encontrava com a vizinha da Rua "5". Por horas cheguei a incomodá-la, vezes por pedrinhas e pedrões, até manilhas de PVC de nossa construção; tudo era arremessado lá! Lembro-me com detalhes dos cabelos negros encaracolados da vizinha da rua de baixo, a me xingar: “seu moleque filho da mãe!”.
      As brincadeiras e intrigas com meus irmãos e vizinhos, nossa, como tinha pedra naquele lugar pra atirar! Lembro-me do cheiro das fortes chuvas de verão que batiam na rua, até então não asfaltada, cheiro de lama que escorria com a enxurrada. Parte dela adentrava o quintal de minha casa, formando um redemoinho. Era uma sujeira só! Tinha medo, pois a rua parecia uma cachoeira, com toda aquela água provinda de uma viela que ficava ao lado dos prédios, numa época em que ainda não existia o mercado D'avó. Quando asfaltaram a rua, as coisas melhoraram bastante. Foi o início de novas brincadeiras: o primeiro velotrol, a bicicleta e os carrinhos de rolimã feitos pelo meu pai. Foi só o começo de uma infância inesquecível! Pular corda, jogar taco, rouba-bandeira, armar a rede de vôlei, esconde-esconde (mas não vale se esconder no Jumbo Eletro, hein!), pega-pega, futebol. Às noitinhas, ia pra casa tomar banho, aos gritos de minha mãe: “Ôôoo Rodrigooo! Vem já pra casa!”. Depois do banho, podia sair mais um pouquinho, ficávamos na calçada - esta era a condição, e jogávamos bola de gude, rodávamos peão e, quase sempre, com as meninas, o momento mais esperado: brincar de pêra-maçã-salada mista, na época chamado de "É esse?". Podíamos dar nossas primeiras bitocas na boca, com toda aquela inocência, que hoje não existe mais.
      O primeiro dia no prézinho, na Osvaldo Vale Cordeiro, aqueles shorts vermelhos apertando as coxas, os coleguinhas chorando, o gosto da primeira merenda, achocolatado de caixinha, pão e banana! Até me lembro de meu primeiro amigo inseparável: Manoel. Nunca mais o vi. As festas juninas eram inesquecíveis; o cheiro delas ainda está no meu nariz, basta fechar os olhos e sentir...
      Quem poderia se esquecer das primeiras séries no Amador Arruda Mendes? Só Seu Cláudio, que guardava a escola e sua esposa, com seus famosos geladinhos, assim como outros tantos personagens famosos de lá, como o Toninho da cantina, com o seu imbatível pão com molho no saquinho - vendia que só! Mas seu mais cobiçado produto era o imbatível mixto quente, que o diga o Professor Waldomiro de educação física, todo dia ele soltava: "Ô fulano! Pega um mixto e uma coca lá no Toninho pra mim!" A querida professora Rose, da 4ª série A; que carinhosa, excelente educadora, não podendo dizer o mesmo das inspetoras Dona Jô com seus gritos em altos decibéis (acreditem era tão potente quanto a sirene da escola!) e da Senhora Cidinha com suas esterías, também nunca mais os vi! Quem me dera. A fanfarra embalava os sábados à tarde daquele povoado sob o comando do ilustríssimo Professor Heber.  Hoje...?
      Dos tempos de ginásio e colégio, do bom vôlei e futebol na quadra da escola, os primeiros namoricos, dos bailinhos entre as ruas das "casinhas", nos embalos de "Super Sonic" e "Sally, the Girl"! Dos amassos no estacionamento do Jumbo Eletro, das matinês de domingo na Toco - quantas vezes não voltei a pé, era incrível! Que bom poder estar aqui, matar a saudade, sonhar com este tempo e com as pessoas maravilhosas que fizeram parte desta infância incrível, a qual não posso proporcionar ao meu filho nos dias de hoje.
      Hoje percebo o quanto fui injusto em reclamar que não era feliz. Eu fui, e muito!

      Saudações e abraços aos meus queridos amigos de outrora, que povoaram o meu ser e me fizeram ser quem sou!

Obrigado, Cohab!